domingo, 8 de maio de 2016

Sobre livros

Adoro rabiscar livros.
Sublinhar linhas a fio, escrever anotações, pintar os espaços em branco das letras.
Acho que lhes dá mais vida, mais história, mais cor.
Mas não os rabisco a todos.
Alguns não precisam de mais estórias para além das suas.
A alguns deixo que mantenham o cheiro a que me acostumaram.
Cheiro a novo, a velho, a mofo; o que for.
A outros rabisco-os só com o meu nome na primeira página.
Porque são meus. Ou então porque quero que àquele que o pegue saiba a sua origem.
Também adoro cheirar os livros.
E começar por ler a sua última folha. Não exactamente por ler mas por rebeldia.
E ver restos de borracha entre as folhas.
Adoro livros de poesia.
Com páginas e páginas quase que vazias, quase que cheias de nada.
Ou então cheias de tudo.
Pequenos ou grandes versos.
Com palavras que bailam entre cada desfolhar.
Adoro emprestar livros. Ou dá-los mesmo que por empréstimo.
Mas em alguns não rabisquei o meu nome e não se sabe a origem.
Ou então esquece-se.
Como muitas coisas que se lêem e outras tantas que permanecem.
Também adoro recordar os motivos desses rabiscos.
Que por vezes são nenhuns.
Mas que acabam, mesmo assim, por serem tantos.



segunda-feira, 25 de abril de 2016

Banana

Despertou-se-me um desejo a banana
que pouco engana
esta fome que acresce em mim.
Comendo-a com toda a gana
vou esquecendo que a rapidez faminta
de pouco ou nada sacia
esse (des)prazer desconsertado.
Mesmo assim 
lá me vou enganando um bocado
já que o prazo é agora absoluto.
Aproveito então esta banana
pois aquela que me chama
não mais dela tirarei proveito.
Que não me censurem com catanas
se é voz sincera 
esta que tenta gracejar.
Se me apetece banana
e apetecer não posso travar
senão consolar-me de fantasia bananal
(ou deveria eu dizer bacanal).

segunda-feira, 7 de março de 2016

VII/III

Que vida tacanha
que tanto me estranha
não saber de quem é.
Há tanta manha
que a dor na entranha
fica a doer a valer.
Não há quem me tenha
mas sempre que cá venha
valerá a pena.
E daqui ninguém ganha
só se for uma senha
para desaparecer.

Ainda não disse "não"
disse agora e então
que vai acontecer?
Rebelde que leva sermão
reconhece o senão
de vir a perder.
Fugir da podridão
é encontrar a solidão
mas acabar por ganhar.
Se a conquista não é intenção
por que continua o porão
recheado de prazer?

Que de toda a façanha 
não incomode um coração
que chora sem se saber.

sexta-feira, 4 de março de 2016

I feel blue, baby

Oh I feel so blue baby,
can't you bring me home tonight?
Take me slowly and come with me,
then we'll make love like we never did before.
I feel so blue baby,
left alone behind the door.

Oh I feel so blue baby,
why don't you come home tonight?
the turntable is playing
while I'm crying without knowing how.
And I feel so blue baby,
my life seems upside down.

Oh I feel so blue baby
but blues comfort me now,
you don't come over darling,
you don't talk to me no more.
Oh I still wanna make love to you baby,
but blues brought me back to the shore.

Oh I feel so blue baby
and blues know how,
undress me with your guitar
or I promise I'll leave the town.
I thought you would love me the morning after
but blues always bring the truth into my eyes.

Oh I feel so blue baby,
I don't wanna feel it anymore.
Why don't you love me the morning after
like you loved me the night before?

Vento gozão

Os chuviscos vestiram-se de tempestade. 
E o vento, jactancioso,
uiva pela cidade.
É tão tenebroso,
é tão ígnea a sua voz,
que por cada vez que cantam os sinos,
volta a enfurecer-se, atroz.
Queres derrubar árvores,
abanar multidões,
agitar corações,
ser um lembrete constante?
Não há que ter medo de ti,
vento ofegante.
Os teus gritos inoportunos
não são destreza,
só mera demência.
Não é quem grita mais alto
detentor de toda a retórica,
nem da omnisciência.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Rosto de Chuva

A janela convida-me à rua, mesmo estando a vidraça fria a embaciar-me a visão. Hesito mas arrisco. As nuvens estremecem e dão os seus sinais de fragilidade, o que fazia crer que, a qualquer momento, água voltaria a brotar delas. De guarda-chuva irrequieto e frágil, mantive o meu olhar firme ao chão, de modo a evitar afogar um pé nalguma poça. Entre desvios correntes promovidos pelos uivos do ar, acabo por encontrar no meu guarda-chuva um guarda desleal. E, preocupada em não encharcar os pés nas poças, acabo por me mergulhar, distraidamente, no primeiro reflexo. Vejo no reflexo, que essa poça de água aclama, bem mais do que um rosto, que, quando pestanejo, volta a ser somente o seu retrato. Um rosto conhecido mas estranho. Que me faz não saber o que é ele de mim, nem saber se será realmente o espelho de todo este frenesim, que lá vai fervilhando sob a minha pele. Aparentemente inócuo e mudo. 
Volto a andar. E, durante esse vaguear, a precipitação retorna ao seu encanto. O meu rosto rodopia e desfoca-se (talvez assim se enquadre mais a todo este cenário que me envolve). Os tons cinza, o vento musicante, o eco das passadas, a chuva dominante. O meu rosto molha-se, mas a tinta não sai nem se desbota. E a chuva, na sua rebeldia mutante, corrói e ofusca ainda mais. O que vale é que nem sempre a aparência transparece demência e nem sempre a demência gera palavras. Só um silêncio suspenso e oco; a distância, a inimizade, a impaciência. 


Porto

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Sob o olhar do Douro

Um banco vazio,
uma brisa fria
e uma calmaria desdenhada.
Uma paisagem que se pinta
nas cores do Douro,
que quando foge da vista
é na mente tesouro.
O sol que brilha resoluto,
solta de mim a sombra
e o nevoeiro que em dias emergia.
Poeira que se agita
e que dança pelas esquinas dos caminhos.
No banco só,
acompanhada pelos fantasmas
e pela timidez da Primavera.
Encontrei mais um refúgio
e na inexistência uma nova essência.