Um ano passado e floresceu.
Plantara essa semente
que vivo vermelho viria a ter,
com uma pitada da esperança
de quem a viveu um dia.
Poder torná-la protagonista do meu casaco preto,
enamorá-la com o meu sorriso.
Dar-lhe uma nova vida,
para além dessa subtil
que vivera, enquanto crescia, no meu jardim.
Mostrar-lhe a luz deste dia,
mostrar-lhe Abril.
Beijá-la como quem beija a História.
Inalar o seu perfume,
sob o imaginário de um passado
de que não se privilegiou a minha memória.
Poder ter-te ao peito
sentindo a liberdade das ruas.
Poderes ser cravo tom de amor
mesmo na constante urgência da sua existência,
num tempo que corre ágil,
volátil.
terça-feira, 25 de abril de 2017
terça-feira, 30 de agosto de 2016
Estar só não é solidão
A música era simples e serena, por isso, adormeci no sofá. Só acordei quando a grafonola fez silêncio. O que é curioso, já que o ruído me fez dormir e o silêncio me fez despertar. Espreguicei um pouco as pernas e esfreguei os olhos. A janela pintava a despedida do sol, a noite ia abraçando o dia. Adormecera há quanto tempo? Na verdade não era algo com me importasse realmente... Ninguém me esperava, tinha o tempo só para mim, a casa só para mim. Tinha-me a mim só para mim. Às vezes suspirava. Mas estar só não é solidão.
Começara a chover, o que finalmente fazia com que as minhas janelas ficassem menos sujas (ou, pelo menos, ajudava a remediar). É engraçado, se há alguém que não sabe agir sozinha é, precisamente, a Chuva. Sempre acompanhada pelas nuvens e por uma imensidão de comadres, em constantes corridas a ver quem chega primeiro cá abaixo. Agora que penso, a Lua também se faz acompanhar pelas estrelas, mesmo que estas possam brilhar mais que ela. Já o Sol anda quase sempre sozinho, se bem que pouca diferença lhe faz, já que tudo gira à sua volta. Está bem. Talvez me sinta um pouco só, mas, mais uma vez, separo-me da solidão. Porém, se nos juntássemos resolveríamos esse problema. Solidão, queres vir jantar comigo? Não custa nada colocar mais um prato na mesa.
Olhem para mim a falar com a Solidão, a convidar-me a mim própria para tudo o que ela acarreta. Nem nos conhecemos bem sequer, não nos daríamos muito bem. Eu gosto de andar por aí com cara alegre, não de viver debaixo da sombra. Eu cá me arranjo, Solidão. Estar só não é solidão. Acho que me vou convidar para jantar. Um cinema depois, talvez. Com certeza ainda teremos muitas conversas a pôr em dia, como esta. Ainda veremos muitos pôr-do-sol, muitas crianças a correr na rua. Ainda ouviremos muita chuva a bater na janela e muita música a soltar-se pela grafonola. Olha só, a primeira estrela no céu. Dizem que é Vénus, tão brilhante e tão intensa. A primeira a chegar e a última a sair.
quinta-feira, 7 de julho de 2016
Mind in the dark
The lights are fading their souls out,
the lights are whipping their ghosts.
The dreams are wasted for no role,
while minds are freaking loudly.
the lights are whipping their ghosts.
The dreams are wasted for no role,
while minds are freaking loudly.
sexta-feira, 10 de junho de 2016
Libertina
Esse amor é maior que o meu,
ou achas que não?
Platónico.
Tectónico.
Por poder ser desenhado
pela tua mão.
Sem rosto, sem corpo, sem nudez.
Um mergulho profundo,
só.
Sem toque, sem gemido, sem timidez.
Um imaginário mirabolante,
dó.
Abraços no silêncio,
abrigo sem tecto,
pés sem chão.
Suspiro na lentidão.
Gestação do tempo,
paciência, feto.
Contracções ventriculares prematuras,
sem paragens,
constantes.
No deserto em tonturas,
pés descalços na areia.
Instantes.
ou achas que não?
Platónico.
Tectónico.
Por poder ser desenhado
pela tua mão.
Sem rosto, sem corpo, sem nudez.
Um mergulho profundo,
só.
Sem toque, sem gemido, sem timidez.
Um imaginário mirabolante,
dó.
Abraços no silêncio,
abrigo sem tecto,
pés sem chão.
Suspiro na lentidão.
Gestação do tempo,
paciência, feto.
Contracções ventriculares prematuras,
sem paragens,
constantes.
No deserto em tonturas,
pés descalços na areia.
Instantes.
domingo, 8 de maio de 2016
Sobre livros
Adoro rabiscar livros.
Sublinhar linhas a fio, escrever anotações, pintar os espaços em branco das letras.
Acho que lhes dá mais vida, mais história, mais cor.
Mas não os rabisco a todos.
Alguns não precisam de mais estórias para além das suas.
A alguns deixo que mantenham o cheiro a que me acostumaram.
Cheiro a novo, a velho, a mofo; o que for.
A outros rabisco-os só com o meu nome na primeira página.
Porque são meus. Ou então porque quero que àquele que o pegue saiba a sua origem.
Também adoro cheirar os livros.
E começar por ler a sua última folha. Não exactamente por ler mas por rebeldia.
E ver restos de borracha entre as folhas.
Adoro livros de poesia.
Com páginas e páginas quase que vazias, quase que cheias de nada.
Ou então cheias de tudo.
Pequenos ou grandes versos.
Com palavras que bailam entre cada desfolhar.
Adoro emprestar livros. Ou dá-los mesmo que por empréstimo.
Mas em alguns não rabisquei o meu nome e não se sabe a origem.
Ou então esquece-se.
Como muitas coisas que se lêem e outras tantas que permanecem.
Também adoro recordar os motivos desses rabiscos.
Que por vezes são nenhuns.
Mas que acabam, mesmo assim, por serem tantos.
Sublinhar linhas a fio, escrever anotações, pintar os espaços em branco das letras.
Acho que lhes dá mais vida, mais história, mais cor.
Mas não os rabisco a todos.
Alguns não precisam de mais estórias para além das suas.
A alguns deixo que mantenham o cheiro a que me acostumaram.
Cheiro a novo, a velho, a mofo; o que for.
A outros rabisco-os só com o meu nome na primeira página.
Porque são meus. Ou então porque quero que àquele que o pegue saiba a sua origem.
Também adoro cheirar os livros.
E começar por ler a sua última folha. Não exactamente por ler mas por rebeldia.
E ver restos de borracha entre as folhas.
Adoro livros de poesia.
Com páginas e páginas quase que vazias, quase que cheias de nada.
Ou então cheias de tudo.
Pequenos ou grandes versos.
Com palavras que bailam entre cada desfolhar.
Adoro emprestar livros. Ou dá-los mesmo que por empréstimo.
Mas em alguns não rabisquei o meu nome e não se sabe a origem.
Ou então esquece-se.
Como muitas coisas que se lêem e outras tantas que permanecem.
Também adoro recordar os motivos desses rabiscos.
Que por vezes são nenhuns.
Mas que acabam, mesmo assim, por serem tantos.
segunda-feira, 25 de abril de 2016
Banana
Despertou-se-me um desejo a banana
que pouco engana
esta fome que acresce em mim.
Comendo-a com toda a gana
vou esquecendo que a rapidez faminta
de pouco ou nada sacia
esse (des)prazer desconsertado.
Mesmo assim
lá me vou enganando um bocado
já que o prazo é agora absoluto.
Aproveito então esta banana
pois aquela que me chama
não mais dela tirarei proveito.
Que não me censurem com catanas
se é voz sincera
esta que tenta gracejar.
Se me apetece banana
e apetecer não posso travar
senão consolar-me de fantasia bananal
(ou deveria eu dizer bacanal).
que pouco engana
esta fome que acresce em mim.
Comendo-a com toda a gana
vou esquecendo que a rapidez faminta
de pouco ou nada sacia
esse (des)prazer desconsertado.
Mesmo assim
lá me vou enganando um bocado
já que o prazo é agora absoluto.
Aproveito então esta banana
pois aquela que me chama
não mais dela tirarei proveito.
Que não me censurem com catanas
se é voz sincera
esta que tenta gracejar.
Se me apetece banana
e apetecer não posso travar
senão consolar-me de fantasia bananal
(ou deveria eu dizer bacanal).
segunda-feira, 7 de março de 2016
VII/III
Que vida tacanha
que tanto me estranha
não saber de quem é.
Há tanta manha
que a dor na entranha
fica a doer a valer.
Não há quem me tenha
mas sempre que cá venha
valerá a pena.
E daqui ninguém ganha
só se for uma senha
para desaparecer.
Ainda não disse "não"
disse agora e então
que vai acontecer?
Rebelde que leva sermão
reconhece o senão
de vir a perder.
Fugir da podridão
é encontrar a solidão
mas acabar por ganhar.
Se a conquista não é intenção
por que continua o porão
recheado de prazer?
Que de toda a façanha
não incomode um coração
que chora sem se saber.
que tanto me estranha
não saber de quem é.
Há tanta manha
que a dor na entranha
fica a doer a valer.
Não há quem me tenha
mas sempre que cá venha
valerá a pena.
E daqui ninguém ganha
só se for uma senha
para desaparecer.
Ainda não disse "não"
disse agora e então
que vai acontecer?
Rebelde que leva sermão
reconhece o senão
de vir a perder.
Fugir da podridão
é encontrar a solidão
mas acabar por ganhar.
Se a conquista não é intenção
por que continua o porão
recheado de prazer?
Que de toda a façanha
não incomode um coração
que chora sem se saber.
sexta-feira, 4 de março de 2016
I feel blue, baby
Oh I feel so blue baby,
can't you bring me home tonight?
Take me slowly and come with me,
then we'll make love like we never did before.
I feel so blue baby,
left alone behind the door.
Oh I feel so blue baby,
why don't you come home tonight?
the turntable is playing
while I'm crying without knowing how.
And I feel so blue baby,
my life seems upside down.
Oh I feel so blue baby
but blues comfort me now,
you don't come over darling,
you don't talk to me no more.
Oh I still wanna make love to you baby,
but blues brought me back to the shore.
Oh I feel so blue baby
and blues know how,
undress me with your guitar
or I promise I'll leave the town.
I thought you would love me the morning after
but blues always bring the truth into my eyes.
Oh I feel so blue baby,
I don't wanna feel it anymore.
Why don't you love me the morning after
like you loved me the night before?
Vento gozão
Os chuviscos vestiram-se de tempestade.
E o vento, jactancioso,
uiva pela cidade.
É tão tenebroso,
é tão ígnea a sua voz,
que por cada vez que cantam os sinos,
volta a enfurecer-se, atroz.
Queres derrubar árvores,
abanar multidões,
agitar corações,
ser um lembrete constante?
Não há que ter medo de ti,
vento ofegante.
Os teus gritos inoportunos
não são destreza,
só mera demência.
Não é quem grita mais alto
detentor de toda a retórica,
nem da omnisciência.
E o vento, jactancioso,
uiva pela cidade.
É tão tenebroso,
é tão ígnea a sua voz,
que por cada vez que cantam os sinos,
volta a enfurecer-se, atroz.
Queres derrubar árvores,
abanar multidões,
agitar corações,
ser um lembrete constante?
Não há que ter medo de ti,
vento ofegante.
Os teus gritos inoportunos
não são destreza,
só mera demência.
Não é quem grita mais alto
detentor de toda a retórica,
nem da omnisciência.
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016
Rosto de Chuva
A janela convida-me à rua, mesmo estando a vidraça fria a embaciar-me a visão. Hesito mas arrisco. As nuvens estremecem e dão os seus sinais de fragilidade, o que fazia crer que, a qualquer momento, água voltaria a brotar delas. De guarda-chuva irrequieto e frágil, mantive o meu olhar firme ao chão, de modo a evitar afogar um pé nalguma poça. Entre desvios correntes promovidos pelos uivos do ar, acabo por encontrar no meu guarda-chuva um guarda desleal. E, preocupada em não encharcar os pés nas poças, acabo por me mergulhar, distraidamente, no primeiro reflexo. Vejo no reflexo, que essa poça de água aclama, bem mais do que um rosto, que, quando pestanejo, volta a ser somente o seu retrato. Um rosto conhecido mas estranho. Que me faz não saber o que é ele de mim, nem saber se será realmente o espelho de todo este frenesim, que lá vai fervilhando sob a minha pele. Aparentemente inócuo e mudo.
Volto a andar. E, durante esse vaguear, a precipitação retorna ao seu encanto. O meu rosto rodopia e desfoca-se (talvez assim se enquadre mais a todo este cenário que me envolve). Os tons cinza, o vento musicante, o eco das passadas, a chuva dominante. O meu rosto molha-se, mas a tinta não sai nem se desbota. E a chuva, na sua rebeldia mutante, corrói e ofusca ainda mais. O que vale é que nem sempre a aparência transparece demência e nem sempre a demência gera palavras. Só um silêncio suspenso e oco; a distância, a inimizade, a impaciência.
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016
Sob o olhar do Douro
Um banco vazio,
uma brisa fria
e uma calmaria desdenhada.
Uma paisagem que se pinta
nas cores do Douro,
que quando foge da vista
é na mente tesouro.
O sol que brilha resoluto,
solta de mim a sombra
e o nevoeiro que em dias emergia.
Poeira que se agita
e que dança pelas esquinas dos caminhos.
No banco só,
acompanhada pelos fantasmas
e pela timidez da Primavera.
Encontrei mais um refúgio
e na inexistência uma nova essência.
uma brisa fria
e uma calmaria desdenhada.
Uma paisagem que se pinta
nas cores do Douro,
que quando foge da vista
é na mente tesouro.
O sol que brilha resoluto,
solta de mim a sombra
e o nevoeiro que em dias emergia.
Poeira que se agita
e que dança pelas esquinas dos caminhos.
No banco só,
acompanhada pelos fantasmas
e pela timidez da Primavera.
Encontrei mais um refúgio
e na inexistência uma nova essência.
Às vezes sonho
Às vezes sonho que adormeço
no teu peito, nos teus braços.
Como se o tempo parasse,
a folia se esgotasse
e não houvesse mundo para além desse.
Sinto, nesse sonho,
a tua pele, o teu calor, o teu odor.
Como se estivesses presente aqui,
como se estivesse suspensa no teu ar.
E sonho de forma tão real
que a saudade foge num suspiro,
e, todo o ar que respiro,
se desprende num só fôlego,
abarcado numa ânsia desmedida.
Por que és só sonho
nesta imagem que me envolve?
Parece tudo mais concreto
quando há certeza da sua irresolução,
já que a decepção é feita à nossa medida.
Ainda assim sonho.
Envolve-me e deixa-me fantasiar-te.
O sonho é só meu,
o segredo é só nosso.
no teu peito, nos teus braços.
Como se o tempo parasse,
a folia se esgotasse
e não houvesse mundo para além desse.
Sinto, nesse sonho,
a tua pele, o teu calor, o teu odor.
Como se estivesses presente aqui,
como se estivesse suspensa no teu ar.
E sonho de forma tão real
que a saudade foge num suspiro,
e, todo o ar que respiro,
se desprende num só fôlego,
abarcado numa ânsia desmedida.
Por que és só sonho
nesta imagem que me envolve?
Parece tudo mais concreto
quando há certeza da sua irresolução,
já que a decepção é feita à nossa medida.
Ainda assim sonho.
Envolve-me e deixa-me fantasiar-te.
O sonho é só meu,
o segredo é só nosso.
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016
És e não és
És uma amargura sábia
que devoro com o tempo,
sem enjoos, sem descansos,
por olhares frios
na guarida de pinheiros mansos.
És um nó sem ponto,
tinta sem paleta,
num quadro vazio
que a imaginação sustenta
muito mais que a aparência.
És um olhar fugitivo,
outrora aprisionado,
de uma corrente levemente brusca,
sem destinos ou conclusões,
de firmeza tosca.
És uma prosa sem palavras,
poucos diálogos, alguns parágrafos.
De afirmações atentas
que se preocupam de nada,
de tensões esquentadas.
És uma curiosidade, um mistério, fervor;
és cansaço, frieza, ambiguidade.
És e não és.
O começo do fim
e o fim do começo.
quinta-feira, 14 de janeiro de 2016
Prolegómenos do nada
É mais um daqueles dias. Um daqueles dias que só apetece andar para a frente e não voltar a olhar mais para trás. Partir sem rumo, mas partir.
Há só nevoeiro à minha volta e um ruído miudinho, que faz lembrar o ambiente caça espíritos e as actividades paranormais. E, ainda, um desassossego assustador e louco. Uma sensação de não saber onde estou, nem o que se encontra à minha volta. No entanto, reconheço a sensação. Voltei a padecer na mesma situação. Nego-me, escondo-me, mas não grito. Por mais que me possa apetecer, não tenho forças. Já não vale a pena. Já não valho a pena. Deixem-me... Quero ver o mar, enamorar o mar. Sentir o vento na cara, os olhos a arder, o frio a rachar-me a pele. Quero ouvir o mar bravo e rugir com ele. Rugir com o coração na garganta e o nó no estômago, a ver se daí desembarcam de vez. Não quero saber de mais nada, nem de mais ninguém. Quero saborear a minha solidão, pois só ela me acompanha. E não se desprende de mim, não se farta, não se cansa. Estou cansada e insatisfeita. Sinto-me desprezível, com vontade de voar, de deixar de sentir os pés.
Neste momento só tenho vontade de ouvir esse mar. Porque até ele que é tão imenso e sempre o mesmo, canta algo diferente em cada lugar.
Há só nevoeiro à minha volta e um ruído miudinho, que faz lembrar o ambiente caça espíritos e as actividades paranormais. E, ainda, um desassossego assustador e louco. Uma sensação de não saber onde estou, nem o que se encontra à minha volta. No entanto, reconheço a sensação. Voltei a padecer na mesma situação. Nego-me, escondo-me, mas não grito. Por mais que me possa apetecer, não tenho forças. Já não vale a pena. Já não valho a pena. Deixem-me... Quero ver o mar, enamorar o mar. Sentir o vento na cara, os olhos a arder, o frio a rachar-me a pele. Quero ouvir o mar bravo e rugir com ele. Rugir com o coração na garganta e o nó no estômago, a ver se daí desembarcam de vez. Não quero saber de mais nada, nem de mais ninguém. Quero saborear a minha solidão, pois só ela me acompanha. E não se desprende de mim, não se farta, não se cansa. Estou cansada e insatisfeita. Sinto-me desprezível, com vontade de voar, de deixar de sentir os pés.
Neste momento só tenho vontade de ouvir esse mar. Porque até ele que é tão imenso e sempre o mesmo, canta algo diferente em cada lugar.
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| Portimão |
segunda-feira, 28 de dezembro de 2015
Preso a esse barco
Não quero que partas,
mas deixas-me partir...
Tinha tanto para te dar,
tão pouco para te pedir.
Mas não largas as cordas que te prendem,
as amarras que te agarram,
as correntes que te sufocam.
E eu dei-te a navalha dessas cordas,
as mãos para essas amarras,
a chave dessas correntes.
Continuas preso a esse barco,
ao tempo que não existe.
E eu não posso persistir,
pois a mim não me competem
as perícias do tempo.
Sopra o vento,
ondula o mar,
desprendo-me de ti.
Zelo para que te desprendas desse olhar.
mas deixas-me partir...
Tinha tanto para te dar,
tão pouco para te pedir.
Mas não largas as cordas que te prendem,
as amarras que te agarram,
as correntes que te sufocam.
E eu dei-te a navalha dessas cordas,
as mãos para essas amarras,
a chave dessas correntes.
Continuas preso a esse barco,
ao tempo que não existe.
E eu não posso persistir,
pois a mim não me competem
as perícias do tempo.
Sopra o vento,
ondula o mar,
desprendo-me de ti.
Zelo para que te desprendas desse olhar.
sábado, 21 de novembro de 2015
Aleatoriedade
Eu gosto muito de árvores, mas também gosto de florzinhas. Portanto, se forem árvores com florzinhas, acho que tenho atingido o auge de felicidade do meu dia.
No outro dia, derivado de um aleatório momento de lazer (que, diga-se de passagem, claramente não são muitos... longe de mim dar-me a hereges andanças dessa envergadura), sentei-me à sombra da ameixeira (porque essa coisa das bananas é demasiado tropical para aqui) e contemplei um pequeno rebento de um pequeno ranco de uma pequena árvore (e eu que sou tão grande). Não é que o safado teve a ousadia de se fecundar a esta altura do ano? O frio já anda por aí a dar aso aos seus encantos e um rebento lembra-se de se fazer surgir. Olha-me esta. Por isso é que este mundo está como está: andam uns a fazer as coisas às pressas para não apanhar resfriados e, outros, armados em valentes, decidem dar o ar de sua graça. Eu não sei, mas cheira-me que vai sofrer não só de pneumonia mas também de enredos de solidão. Contudo, alicia-nos à sua observação. É o único ali, sem medos nem remorsos. Olha, gostava de ser assim. Mesmo sozinha sentir-me a pessoa mais bem acompanhada do mundo, sem sofrer frios, incertezas ou crises de meia idade.
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| Sta Mª da Feira |
sexta-feira, 6 de novembro de 2015
Outono
De todas as manhãs que percorri, hoje foi a que mais me custou. A chuva teimava em cair inóspita, o vento insolitamente gritava e os meus passos eram um completo ziguezague, no meio de toda esta euforia. O guarda-chuva dançava na minha mão e as minhas botas, por mais que tentassem escapar, iam sempre ao encontro das largas poças. A aurora, com a sua roupagem de agitação habitual, parecia um mero eco das minhas passadas, um deserto.
No meu pensamento desenhavam-se todos estes pormenores e uma vontade imensa de poder parar o tempo e consultar cada rosto, cada gesto, cada pessoa que por mim passava e que eu praticamente não notava. Porém, aquando da pausa das minhas pegadas, notei, com mais atenção, algo - e, com mais atenção, pretendo dizer que já as havia notado, contudo, só vendo e não observando -, as folhas. Um carreiro desconcertado de folhas encontrava-se no meu caminho, qual tapete de texturas, cores e sonidos. Provavelmente já por muitos passara nessa mesma manhã ou até noutras, mas, hoje as folhas eram diferentes, quer dizer, para mim, para o meu olhar, porque, hoje, as folhas levavam-me a olhar também para as árvores. E elas pareciam tão tristes. Tristes, humildes, engrunhidas. O Outono despia-lhes as folhas a pouco e pouco, e o vento suscitava-lhes calafrios constantes. As folhas lá balançavam delas em direcção ao chão, mostrando-se felizes, mas já saudosas, por se desembaraçarem delas... Tanto demoraram a nascer, tantas temperaturas passaram juntas e, agora, o frio vem estilhaçar todo este apego e este amor. A árvore sabe o que aí vem, um Inverno que nada mais lhe traz senão camadas de neve branca, chuva que se cristaliza ou raios de sol tímidos, e as folhas, fora aquelas que nunca mais saíram do chão, foram viajar por esse mundo fora, à boleia do vento.
No meu pensamento desenhavam-se todos estes pormenores e uma vontade imensa de poder parar o tempo e consultar cada rosto, cada gesto, cada pessoa que por mim passava e que eu praticamente não notava. Porém, aquando da pausa das minhas pegadas, notei, com mais atenção, algo - e, com mais atenção, pretendo dizer que já as havia notado, contudo, só vendo e não observando -, as folhas. Um carreiro desconcertado de folhas encontrava-se no meu caminho, qual tapete de texturas, cores e sonidos. Provavelmente já por muitos passara nessa mesma manhã ou até noutras, mas, hoje as folhas eram diferentes, quer dizer, para mim, para o meu olhar, porque, hoje, as folhas levavam-me a olhar também para as árvores. E elas pareciam tão tristes. Tristes, humildes, engrunhidas. O Outono despia-lhes as folhas a pouco e pouco, e o vento suscitava-lhes calafrios constantes. As folhas lá balançavam delas em direcção ao chão, mostrando-se felizes, mas já saudosas, por se desembaraçarem delas... Tanto demoraram a nascer, tantas temperaturas passaram juntas e, agora, o frio vem estilhaçar todo este apego e este amor. A árvore sabe o que aí vem, um Inverno que nada mais lhe traz senão camadas de neve branca, chuva que se cristaliza ou raios de sol tímidos, e as folhas, fora aquelas que nunca mais saíram do chão, foram viajar por esse mundo fora, à boleia do vento.
sábado, 10 de outubro de 2015
Da sombra
Escondo-me na sombra,
pois ela não se pinta de esperanças.
Que mais é ela do que cinzenta,
do que fria e discreta?
Por isso me escondo nela.
E vou esperando,
qual pássaro que aguarda as gotas de orvalho,
das folhas, pela manhã.
Não sei se me atrevo,
menos sei se devo.
Duvidar se posso gostar,
se posso sair da sombra e saborear.
Se atravesso este refúgio.
E vou espreitando,
singela e cuidadosa.
De olhar sereno, mas curiosa.
Não sei se me atrevo,
menos sei se devo.
Só sei que quero.
pois ela não se pinta de esperanças.
Que mais é ela do que cinzenta,
do que fria e discreta?
Por isso me escondo nela.
E vou esperando,
qual pássaro que aguarda as gotas de orvalho,
das folhas, pela manhã.
Não sei se me atrevo,
menos sei se devo.
Duvidar se posso gostar,
se posso sair da sombra e saborear.
Se atravesso este refúgio.
E vou espreitando,
singela e cuidadosa.
De olhar sereno, mas curiosa.
Não sei se me atrevo,
menos sei se devo.
Só sei que quero.
domingo, 20 de setembro de 2015
Torrente
![]() |
| Sever do Vouga |
Abraça-me por me quereres,
abraça-me por sentires frio,
abraça-me por sentires medo desse calafrio
que sentes ao não me abraçar.
E olha-me os olhos.
Olha-me e lê a minha alma,
sente os meus sentidos,
ouve o meu silêncio.
Porque quando estou contigo,
pulsa mais rápido o meu sangue
que um suspiro pelas torrentes das águas.
sábado, 12 de setembro de 2015
Reler
Muitas histórias que traças,
traças apoderam-se do teu papel
e devoram até muitos dos pensamentos
que achavas irrevogáveis.
E há medida que vais escrevendo,
e depois lendo,
percebes que mal nenhum teria
se retocasses algumas arestas.
Mas o que interessa alterar o passado,
passado que é presente,
presente que se tornou no agora?
Para tudo há uma hora.
Envolva felicidade ou tristeza.
Há muito que não fica e há muito que se lembra;
e, nessas palavras,
encontro escarrapachado e escondido,
o que fui, o que sou e o que virei a ser.
traças apoderam-se do teu papel
e devoram até muitos dos pensamentos
que achavas irrevogáveis.
E há medida que vais escrevendo,
e depois lendo,
percebes que mal nenhum teria
se retocasses algumas arestas.
Mas o que interessa alterar o passado,
passado que é presente,
presente que se tornou no agora?
Para tudo há uma hora.
Envolva felicidade ou tristeza.
Há muito que não fica e há muito que se lembra;
e, nessas palavras,
encontro escarrapachado e escondido,
o que fui, o que sou e o que virei a ser.
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