segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Às vezes sonho

Às vezes sonho que adormeço
no teu peito, nos teus braços.
Como se o tempo parasse,
a folia se esgotasse
e não houvesse mundo para além desse.

Sinto, nesse sonho, 
a tua pele, o teu calor, o teu odor.
Como se estivesses presente aqui,
como se estivesse suspensa no teu ar.

E sonho de forma tão real
que a saudade foge num suspiro,
e, todo o ar que respiro, 
se desprende num só fôlego,
abarcado numa ânsia desmedida. 

Por que és só sonho
nesta imagem que me envolve?
Parece tudo mais concreto

quando há certeza da sua irresolução,
já que a decepção é feita à nossa medida.

Ainda assim sonho.

Envolve-me e deixa-me fantasiar-te.

O sonho é só meu,
o segredo é só nosso.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

És e não és

És uma amargura sábia
que devoro com o tempo,
sem enjoos, sem descansos,
por olhares frios
na guarida de pinheiros mansos.

És um nó sem ponto,
tinta sem paleta,
num quadro vazio
que a imaginação sustenta
muito mais que a aparência. 

És um olhar fugitivo,
outrora aprisionado,
de uma corrente levemente brusca,
sem destinos ou conclusões,
de firmeza tosca. 

És uma prosa sem palavras,
poucos diálogos, alguns parágrafos.
De afirmações atentas
que se preocupam de nada,
de tensões esquentadas.

És uma curiosidade, um mistério, fervor;
és cansaço, frieza, ambiguidade.
És e não és.
O começo do fim 
e o fim do começo.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Prolegómenos do nada

É mais um daqueles dias. Um daqueles dias que só apetece andar para a frente e não voltar a olhar mais para trás. Partir sem rumo, mas partir. 
Há só nevoeiro à minha volta e um ruído miudinho, que faz lembrar o ambiente caça espíritos e as actividades paranormais. E, ainda, um desassossego assustador e louco. Uma sensação de não saber onde estou, nem o que se encontra à minha volta. No entanto, reconheço a sensação. Voltei a padecer na mesma situação. Nego-me, escondo-me, mas não grito. Por mais que me possa apetecer, não tenho forças. Já não vale a pena. Já não valho a pena. Deixem-me... Quero ver o mar, enamorar o mar. Sentir o vento na cara, os olhos a arder, o frio a rachar-me a pele. Quero ouvir o mar bravo e rugir com ele. Rugir com o coração na garganta e o nó no estômago, a ver se daí desembarcam de vez. Não quero saber de mais nada, nem de mais ninguém. Quero saborear a minha solidão, pois só ela me acompanha. E não se desprende de mim, não se farta, não se cansa. Estou cansada e insatisfeita. Sinto-me desprezível, com vontade de voar, de deixar de sentir os pés. 
Neste momento só tenho vontade de ouvir esse mar. Porque até ele que é tão imenso e sempre o mesmo, canta algo diferente em cada lugar.

Portimão



segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Preso a esse barco

Não quero que partas,
mas deixas-me partir...
Tinha tanto para te dar,
tão pouco para te pedir.
Mas não largas as cordas que te prendem,
as amarras que te agarram,
as correntes que te sufocam.
E eu dei-te a navalha dessas cordas,
as mãos para essas amarras,
a chave dessas correntes.
Continuas preso a esse barco,
ao tempo que não existe.
E eu não posso persistir,
pois a mim não me competem
as perícias do tempo.
Sopra o vento,
ondula o mar,
desprendo-me de ti.
Zelo para que te desprendas desse olhar.

sábado, 21 de novembro de 2015

Aleatoriedade

Eu gosto muito de árvores, mas também gosto de florzinhas. Portanto, se forem árvores com florzinhas, acho que tenho atingido o auge de felicidade do meu dia. 
No outro dia, derivado de um aleatório momento de lazer (que, diga-se de passagem, claramente não são muitos... longe de mim dar-me a hereges andanças dessa envergadura), sentei-me à sombra da ameixeira (porque essa coisa das bananas é demasiado tropical para aqui) e contemplei um pequeno rebento de um pequeno ranco de uma pequena árvore (e eu que sou tão grande). Não é que o safado teve a ousadia de se fecundar a esta altura do ano? O frio já anda por aí a dar aso aos seus encantos e um rebento lembra-se de se fazer surgir. Olha-me esta. Por isso é que este mundo está como está: andam uns a fazer as coisas às pressas para não apanhar resfriados e, outros, armados em valentes, decidem dar o ar de sua graça. Eu não sei, mas cheira-me que vai sofrer não só de pneumonia mas também de enredos de solidão. Contudo, alicia-nos à sua observação. É o único ali, sem medos nem remorsos. Olha, gostava de ser assim. Mesmo sozinha sentir-me a pessoa mais bem acompanhada do mundo, sem sofrer frios, incertezas ou crises de meia idade. 


Sta Mª da Feira


sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Outono

De todas as manhãs que percorri, hoje foi a que mais me custou. A chuva teimava em cair inóspita, o vento insolitamente gritava e os meus passos eram um completo ziguezague, no meio de toda esta euforia. O guarda-chuva dançava na minha mão e as minhas botas, por mais que tentassem escapar, iam sempre ao encontro das largas poças. A aurora, com a sua roupagem de agitação habitual, parecia um mero eco das minhas passadas, um deserto. 
No meu pensamento desenhavam-se todos estes pormenores e uma vontade imensa de poder parar o tempo e consultar cada rosto, cada gesto, cada pessoa que por mim passava e que eu praticamente não notava. Porém, aquando da pausa das minhas pegadas, notei, com mais atenção, algo - e, com mais atenção, pretendo dizer que já as havia notado, contudo, só vendo e não observando -, as folhas. Um carreiro desconcertado de folhas encontrava-se no meu caminho, qual tapete de texturas, cores e sonidos. Provavelmente já por muitos passara nessa mesma manhã ou até noutras, mas, hoje as folhas eram diferentes, quer dizer, para mim, para o meu olhar, porque, hoje, as folhas levavam-me a olhar também para as árvores. E elas pareciam tão tristes. Tristes, humildes, engrunhidas. O Outono despia-lhes as folhas a pouco e pouco, e o vento suscitava-lhes calafrios constantes. As folhas lá balançavam delas em direcção ao chão, mostrando-se felizes, mas já saudosas, por se desembaraçarem delas... Tanto demoraram a nascer, tantas temperaturas passaram juntas e, agora, o frio vem estilhaçar todo este apego e este amor. A árvore sabe o que aí vem, um Inverno que nada mais lhe traz senão camadas de neve branca, chuva que se cristaliza ou raios de sol tímidos, e as folhas, fora aquelas que nunca mais saíram do chão, foram viajar por esse mundo fora, à boleia do vento.
Tanto as observei que perdi a noção do tempo. As árvores estremecem e as folhas caem ao de leve no caminho ou flutuam no ar... Se calhar as folhas são lágrimas das árvores.


Mafra

sábado, 10 de outubro de 2015

Da sombra

Escondo-me na sombra,
pois ela não se pinta de esperanças.
Que mais é ela do que cinzenta,
do que fria e discreta?
Por isso me escondo nela.

E vou esperando,
qual pássaro que aguarda as gotas de orvalho,
das folhas, pela manhã.

Não sei se me atrevo,
menos sei se devo.
Duvidar se posso gostar,
se posso sair da sombra e saborear.
Se atravesso este refúgio.

E vou espreitando,
singela e cuidadosa.
De olhar sereno, mas curiosa.

Não sei se me atrevo,
menos sei se devo.
Só sei que quero.